“Boa Sorte, Leo Grande”: Um reencontro com o desejo e o sexo na meia idade

Boa Sorte, Leo Grande é uma comédia dramática sobre a redescoberta do desejo e do sexo na meia idade.
Tempo de Leitura: 14 minutos

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O filme “Boa sorte, Leo Grande”, no título original “Good Luck to You, Leo Grande”, lançado em 2022, conta a história de Nancy Stokes (Emma Thompson), uma jovem senhora de 55 anos que, após o repentino e precoce (como ela mesmo diz) falecimento de seu marido, começa a questionar suas experiências de vida, dentre elas, sobre o desejo e o sexo na meia idade.

Esse filme misto de comédia e drama oportuniza uma crítica social contundente sobre como pressões e dogmas ditaram à toda uma geração, e às anteriores também, os moldes “corretos e incorretos” de se relacionar sexualmente, introjetando machismo, vergonha e culpa, onde deveriam haver melhores diálogos, acordos, igualdade e generosidade, não apenas nos casais, mas com nossos próprios corpos.

Por outro ângulo, Leo representa uma visão aberta e expressiva sobre a sexualidade. Mais do que um trabalho, ele realmente parece satisfeito em poder proporcionar novas experiências de conexão afetiva e sexual com seus clientes. Inicialmente, preserva sua vida pessoal, tentando separar seu trabalho por meio de limites claros. Além, há um diálogo aberto sobre legalização do trabalho relacionado ao sexo, não escondendo os abusos inerente à profissão e na vida de quem trabalha com o sexo.

Este filme é, na essência, uma prova de que não há idade tarde demais para redescobrir ao próprio corpo e ter novas experiências, mesmo a sociedade nos dizendo que há.

O texto a seguir possui spoilers, sugiro que assista o filme primeiro.

Trailer:

Primeiro Encontro

O filme se inicia com Leo Grande (Daryl McCormack), um jovem trabalhador do sexo, saindo de uma cafeteria local e seguindo para encontrar sua cliente do dia, Nancy. Ao andar nas ruas, percebemos um personagem se recolhendo para dar espaço de palco para um novo. Vemos um Leo Grande tomando forma, quando tira o gorro de cor chamativa de sua cabeça, deixando à mostra apenas tons sóbrios e escuros, com seu personagem atraente em evidência.

A cena corta para a apresentação de Nancy, uma senhora aflita e agitada sozinha em um quarto de hotel aguardando sua visita. É legal percebermos que quase a totalidade do filme se passa dentro de um quarto de hotel e que não há cenas em espaços abertos, com exceção da primeira do filme, com Leo sozinho na rua.

O quarto de hotel padronizado, sempre igual independente do andar ou porta no corredor, demonstra uma concepção de intimidade, ainda que iluminado e exposto por uma grande janela que destaca as silhuetas dos personagens enquanto desenvolvem intimidade.

Devemos ressaltar que Nancy esteve casada durante mais de 30 anos e que teve apenas um parceiro sexual, seu falecido marido Robert. Não bastasse a escassez de parceiros com que se relacionou, consegue descrever com facilidade as (tediosas e previsíveis) transas que tinha com o marido.

“Durante 31 anos, meu marido vinha por cima, fazia o serviço, rolava para o lado, colocava o pijama e dormia. […] Eu nunca tive um orgasmo.”

Nancy Stokes

Nancy é o retrato de uma geração que não conseguiu ir contra os mandamentos da sociedade e de seus familiares, repetindo papéis e funções sem questionar, mesmo que com muita insatisfação. Fazendo alguns cálculos percebemos que Nancy tem 55 anos e está viúva há dois, tendo sido casada por 31 anos, portanto, Nancy se casou com 22 anos. Como ele foi seu único parceiro sexual, é provável que tenha sido ensinada costumes sociais e/ou religiosos sobre o celibato e o popular “esperar a pessoa ideal”, possivelmente tendo se permitido pouco à novas experiências durante a adolescência.

Isso faz especial sentido, já que ela foi professora de Ensino Religioso e, numa cena próxima ao final do filme, um encontro inesperado com uma ex-aluna de Nancy escancara o preconceito, conservadorismo e punitivismo que ensinava às suas alunas e que, sem dúvidas, herdou das gerações passadas.

“A segunda observação lembra que educar para a sexualidade exige estar à vontade e “bem-resolvido” com a sua própria, o que depende de real e profundo conhecimento do assunto, resultando em capacidade de discuti-lo sem meias palavras e sem metáforas”

ABDO, Carmita, H.N., Sexo no Cotidiano: Atração, Sedução, Encontro, Intimidade. Editora Contexto. São Paulo, 2021. p. 33.

Como a própria Nancy diz para Leo, ela não tinha vontade de fazer sexo com seu marido, o fazia por estar casada e não questionar a obrigatoriedade do ato. O sexo com seu marido era tão previsível que era necessário fingir orgasmos, para evitar desconfortos além. Tão forte a frustração que, após a morte do marido, Nancy jura para si mesma que nunca mais iria fingir um orgasmo.

O único relato de “aventura sexual” de Nancy foi quando, em sua juventude, durante uma viagem com a família, sentiu atração mútua por um rapaz do hotel, descrevendo as sensações corporais que sentiu, características de uma excitação. Na mesma noite, sozinha em frente à um arbusto, recebe um repentino beijo no pescoço deste rapaz, o qual coloca sua mão na genitália de Nancy. Ela descreve esse momento como muito excitante, desejando e se sentindo desejada. Contudo, um carro próximo liga seu motor, o rapaz se assusta e some. Resta para Nancy uma sensação de insatisfação e proibicionismo.

Crenças negativas

O personagem de Nancy entre em conflito interno em vários momentos, apesar de ser mais claro no primeiro encontro. Como professora de Ensino Religioso, sempre condenou e ensinou a condenar atos sexuais, tendo realizado estudos com os Trabalhadores do Sexo, definindo para si um perfil da pessoa que trabalha com o sexo como uma pessoa vulnerável que passou por traumas de infância, abusos, violência, abandono e que, principalmente, fazia sexo por necessidade do dinheiro.

Apesar de controverso em sua mente, Nancy parece querer o sexo, mas se impede pelas possíveis crenças que desenvolveu sobre o sexo, como por exemplo: “sexo é algo para ser feito somente no casamento”, “o homem sempre vai querer sexo”, “sexo é uma obrigação, não algo que eu possa gostar”. Claro que essas são interpretações baseadas nos diálogos e comportamentos da personagem, portanto não são um diagnóstico.

Nancy enfrenta um dilema. Em uma mão tem seus preceitos aprendidos e reforçados por toda a vida sobre o sexo e relacionamentos. Na outra mão tem seus desejos reprimidos pulsantes e mais fortes que ela mesma, pedindo uma chance para serem satisfeitos. Em outras palavras, depois de um casamento tão monótono, ela quer sentir desejo e quer ser desejada novamente como em sua juventude.

O mínimo de afeto

Não há um momento no filme que retrate um afeto entre Susan e Robert. Podemos imaginar, por senso comum, um casamento obrigatório, algo como um dever a ser cumprido em sociedade, um caminho que todos devem trilhar e, muitas vezes, sem se questionar se há amor, desejo ou afinidades.

A conexão de Leo Grande e Susan, inicialmente é lenta e cautelosa, mas no segundo encontro se torna visivelmente mais espontânea, principalmente na cena de dança. No final das contas, por mais cativante que a conexão deles possa parecer, e sem querer diminuir Leo ou qualquer movimento nessa direção, é o mínimo que se deveria esperar de uma relação saudável. Um pouco de romance, atração, sedução, sexo, conversas profundas, intelectualidade, escuta e diversão. Podemos pensar que é uma receita para uma relação legal e que a falta desses elementos seja algo monótono do qual Susan já estava cansada.

Cena de dança entre Leo e Nancy
Cena de dança entre Leo Grande e Nancy

Manutenção do Casamento

Nancy se casou com 22 anos, manteve seu trabalho como professora, tem dois filhos, os quais faz questão de evidenciar como são chatos, sendo “pedras penduradas no pescoço”, e tem uma crescente insatisfação com sua vida, até então tão organizada, planejada e previsível.

Podemos pensar na hipótese de Susan (nome verdadeiro usado de propósito), se anulou e apagou em prol do marido Robert e dos filhos. Talvez um exemplo dessa manutenção seja o corta-clima da filha ligando para a mãe durante uma das melhores cenas do filme, a dança entre Nancy e Leo, que poderia criar um ambiente perfeito para a intimidade necessária, mas é quebrada pela dependência da filha, comportamento herdado do marido, que sempre resolvia os problemas dos filhos.

Primeiro Orgasmo e Sexo na Meia Idade

Como professora, aprendeu a ser muito organizada e avaliar racionalmente os prós e contras de cada situação. Tanto que vem para o segundo encontro com Leo com uma lista de experiências que gostaria de realizar. Por vezes, dada a insatisfação de sua vida até então, Nancy parece ter criado uma Lista de afazeres sexuais, muito mais desesperançosa do que realmente entregue.

Desde o início do filme, Nancy deixa claro que o intuito dos encontros com Leo não é atingir o orgasmo. Ela parece já ter aceitado que um orgasmo é algo muito distante, inatingível e que, inclusive, Leo nem precisaria se esforçar ou se frustrar ao não conseguir faze-la alcançar o orgasmo.

Existe a possibilidade de diagnóstico de uma Anorgasmia Primária, ou seja, um quadro no qual a pessoa, seja homem ou mulher, nunca experenciou um orgasmo. Segundo Carmita Abdo, Doutora, Médica Psiquiatra e estudiosa da sexualidade, cerca de 26,2% das mulheres têm dificuldades de atingir o orgasmo.

“Do ponto de vista cronológico, as anorgasmias podem ser primárias ou secundárias. É primária quando a mulher nunca experimentou um orgasmo, nem mesmo em sonho, segundo Masters e Johnson. Chamamos de primária quando se aprendeu a bloquear o reflexo orgásmico em fases muito iniciais da vida e, nesses casos, geralmente há história passada de educação sexual castrativa.”

CAVALCANTI, Mabel, CAVALCANTI, Ricardo. Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5ª edição. São Paulo: Editora Payá. 2019. p.310

O desenrolar do filme é primoroso na questão, já que poderia seguir pelo clichê e obviedade que vemos em tantos filmes com a mesma temática. Contudo, assim como Nancy esperava, os esforços na Leo, por mais prazerosos que sejam, se mostram insuficientes para o orgasmo. A realidade se põe quando, ao ver Leo Grande ir buscar um brinquedo sexual, Susan visualiza seu corpo e começa a se masturbar, em relaxamento e entrega, gozando rapidamente. É claro que o orgasmo não viria tão rápido com tão pouca estimulação, mas o fato da personagem aprender a se tocar, principalmente considerando que a maioria das mulheres alcança o orgasmo se masturbando, é um importante aditivo real à trama.

Quatro personalidades

Após o primeiro encontro, ainda com preconceitos sobre o sexo e o trabalho de Leo, Nancy começa a questionar o personagem de forma inadequada sobre sua família, história e porque trabalhava com sexo. Por diversas vezes seguidas, Leo reforça os limites da relação, demonstrando que ela contratou o Leo e que era o Leo quem ela receberia.

Insatisfeita com as informações, num ato inconsequente, impulsivo e ingenuamente desrepeitoso, Nancy diz saber quem é, verdadeiramente, Leo Grande, o chamando pelo nome de Connor. Até esse momento percebiamos apenas o personagem ensaiado e sedutor de Leo Grande. Era difícil ver o ser humano por trás das habilidades sexuais e interpessoais, mas frustrado e exposto, vemos pela primeira vez um Connor, desnudo, sem máscaras, que não está trabalhando, mas sim mostrando o que sente, tendo de enfrentar sua história, vergonha e aflição. Indignado, exposto e face-a-face com seu passado, ele opta por sair do quarto do hotel, solicitando que Susan não marque mais encontros.

São estabelecidas quatro personalidades, Susan Robinson, Nancy Stokes, Leo Grande e Connor. Todas com suas nuances e contradições. Susan é a pessoa frustrada sexualmente que projetou em seus alunos seus sentimentos, reprimindo neles algo que já estava reprimido dentro dela há anos. Nancy é o contraponto de Susan, liberta e disposta, ainda que receosa, para ter novas experiências e rever sua vida. Leo, o personagem sedutor protegido fortemente por sua armadura de gentilezas e habilidades sexuais, mas que esconde em seu núcleo uma personalidade ferida que foi abandonada pela mãe por exercer algo tão natural quanto sua sexualidade.

Todos os personagens sofrem, de formas singulares, as pressões que os dogmas impõem sobre o sexo.

Boa Sorte, Leo Grande

Leo e Nancy - Sexo na Meia Idade
Boa Sorte, Leo Grande

O quarto, e último, encontro traz mudanças nas características dos personagens. Vemos uma Susan que aceitou seu lado Nancy, abraçando seu desejo, sua intimidade, feminilidade e desatou alguns nós da sexualidade reprimida.

Connor também está muito diferente, agora vem ao encontro desprovido de suas armaduras, desprotegido, vestido (literalmente) de Connor, com roupas coloridas e joviais, em contraste aos tons sóbrios de Leo.

As duras e cirúrgicas incisões que ambos marcaram na pele um do outro fundo o suficiente para permitir que personalidades reprimidas se libertassem e se permitissem viver mais em harmonia, sem necessidade de proteções e escudos.

Por fim, após a última transa, Connor vai embora e, num movimento singular e corajoso, Susan fica em frente ao espelho de corpo todo e deixa cair o seu roupão, deixando seu corpo à mostra. Susan aprendeu a amar e aceitar seu corpo, a querer explora-lo, a se tocar, a se descobrir.

Referências:

  1. ABDO, Carmita,H.N., Sexo no Cotidiano: Atração, Sedução, Encontro, Intimidade. Editora Contexto. São Paulo, 2021.
  2. CAVALCANTI, Mabel, CAVALCANTI, Ricardo. Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5ª edição. São Paulo: Editora Payá. 2019.
  3. Trailer Legendado do filme
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Bruno Mello

Psicólogo e Sexólogo | CRP 08/24273 e CRP 08/02076
Atende no consultório particular de psicologia desde 2016, estuda relacionamentos, sexualidades, cognitiva, neuro, psiquiatria e outros assuntos. Gosta muito de cinema, arte, cultura e assina (quase) todos os serviços de streamings.

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