O que fazer quando o relacionamento tem pouco sexo?

Vocês são casados ou namoram há bastante tempo e o sexo começa a ser menos frequente. O que fazer?
Relacionamento sem sexo

É perfeitamente normal, e desejável, que um casal saudável não paute sua relação amorosa pela relação sexual. Todo terapeuta de casal sabe, e os casais também devem perceber, que o sexo não é o ingrediente principal de relacionamentos longos. Certamente sim, sexo é importante, mas está longe de ser o aditivo protagonista nos relacionamento que datam mais de uma década.

É comum, entretanto, que depois de alguns anos juntos o casal comece a ter menos sexo, seja em quantidade ou em qualidade e conexão afetiva-sexual. Não suficiente, é frequente que a relação esfrie mais até que os cônjuges se tornem quase colegas de quarto ou parceiros de negócios, dividindo as contas mas emocionalmente distantes.

Mas este artigo não pretende falar sobre a importância do sexo e sim sobre aquele momento que todo casal passa, ou passará, quando queremos sexo mas não somos correspondidos, ou então quando estamos muito entretidos e compenetrados em algo, e nem um pouco com vontade de transar, mas nosso(a) parceiro(a) está ardendo em vontade (e tem que ser agora).

Diferenças de libido

É inescapável, sempre haverá diferenças entre o desejo sexual dos(as) parceiros(as). Isso é inclusive importante para balancear a relação e torna-la mais duradoura. Você quer transar dia-sim-dia-não mas seu parceiro se contenta com uma vez por semana. Como lidar com essa diferença? Se não há possibilidade de diálogo e ajustes, são outras questões que manterão a relação, certo?

As vezes essas diferenças de libido pesam mais ou menos na relação. Alguns casais têm a sorte de encontrar o parceiro sexual perfeito. Encontram alguém com quem podem transar todo santo dia e são felizes, outros encontram alguém que concorda que o sexo nem é tão grande coisa e ficam felizes de poderem transar só uma vez ao mês. Entretanto, mesmo esses casais que dizem ter encontrado a pessoa que faz o sangue ferver terão problemas em áreas que possivelmente pesarão mais do que se o sexo passasse por média. Resumindo, a pergunta não é SE você passará por uma situação desmotivadora sobre o sexo, mas QUANDO.

O que é “pouco sexo”?

Não existe resposta certa para essa pergunta. Cada casal elegerá sua própria forma de se relacionar, de amar, de transar. Alguns transam duas vezes ao dia e são felizes assim, outros transam duas vezes ao ano e são igualmente, ou até mais, felizes. A quantidade de sexo presente em uma relação é um regulador tão pequeno da felicidade conjugal à longo prazo que entra nessa conta como coadjuvante. Parceiros de longa data são obrigados pela convivência a ver outros potenciais na relação, afinal, sexo não segura namoro nem casamento, ele apenas os melhora.

Quão importante o sexo é?

Vocês estão juntos há algum tempo e, de repente, um dos dois passa por um momento difícil como demissão do emprego, entra em depressão e tem uma diminuição grande no desejo sexual, o que compromete muito a intimidade da relação. Existe uma solução para isso?

São momentos como esses que botarão a relação à prova, que servem de avaliação para a resiliência e companheirismo do casal.

Principais Causas

Conflitos por questões sexuais são bem mais comuns do que gostamos de falar sobre. Segundo Denise A. Donnelly, PhD em Sociologia, para o The New York Times (disponível aqui), ao menos 15 por cento dos casados não transaram com seus parceiros nos últimos seis meses a um ano.

São muitas as questões que podem resultar na diminuição de desejo sexual. São algumas:

Estresse

O estresse é um agravante para a saúde como um todo, incluindo a vida sexual. Quando estamos muito estressados liberamos muito cortisol, um neurotransmissor relacionado às situações de perigo e que nos mantem alerta para enfrentarmos as dificuldades, assim também esgotando nossa energia e não nos deixando relaxar, aumentando a ansiedade e diminuindo a motivação ao sexo.

Questões de Saúde

Muitas doenças podem afetar a vida sexual e sua qualidade na relação e na percepção corporal. Doenças cardíacas, nervosas, diabetes e também outras relacionadas à saúde física e mental podem influenciar se não tratadas, para ambos os sexos.

Baixo desejo sexual

Conhecido clinicamente como Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (DSH) ou Hypo-Sexual Desire Disorder, esse transtorno pode afetar tanto homens como mulheres. Normalmente se inicia por questões fisiológicas, como andropausa, disfunção erétil, ejaculação retrógrada, modificação no ciclo menstrual, uso de contraceptivos, menopausa, vaginismo e outros. Segundo estudo (disponível aqui), 8,9% das mulheres entre 18 e 44 têm o transtorno, seguido de 12,3% das mulheres entre 45 e 64 anos e 7,4% acima dos 65.

Efeitos colaterais de medicações

Algumas medicações podem afetar o desejo sexual, bem como modificar a liberação de neurotransmissores. As principais drogas que podem influenciar são medicações para pressão alta, esteroides anabolizantes, estabilizadores de humor e alguns antidepressivos (contudo, hoje temos uma gama de antidepressivos muito grande, o que possibilita alternativas com menos efeitos colaterais).

Vício em pornografia

Pacientes que possuem comportamentos sexuais padronizados, como se masturbar somente assistindo determinado tipo de pornografia diariamente podem enfrentar uma dificuldade na subida de excitação quando estão se relacionando afetivamente.

Nascimento dos filhos

Costuma ser indicação médica evitar sexo nas semanas próximas ao parto e também algumas após o nascimento. Não somente existem as orientações médicas, mas também não há tempo hábil para o casal cuidar do bebê e ter tempo para manter atividade sexual, além de que o casal estará mais cansado, mal-dormido e, especialmente para as mulheres, infelizmente enfrentando jornada dupla ou tripla. Desta forma, em um período de mudanças e emoções até então não-vivenciadas é importante reforçar outros aspectos da relação, como o suporte contínuo.

Outros fatores que levam à falta de desejo sexual

– Crenças limitantes relacionadas ao corpo e sexualidade
– Infidelidade
– Luto
– Muitos conflitos na relação
– Transtornos Dismórficos
– Comportamentos de autodepreciação
– Comunicação passiva-agressiva
– Envelhecimento

O que fazer?

Apesar de que todos nós podemos ter respostas diferentes para essa pergunta chave, acredito ser proveitoso nos embasarmos na ciência para alcançarmos respostas plausíveis. Um estudo de 2020 (disponível aqui), realizado por Laura M. Vowels e Kristen P. Mark tentou elencar quais são as atitudes mais comuns dos casais frente negativa sexual. Esse estudo contou com a participação de 229 pessoas, 73 homens, 145 mulheres e 11 pessoas de gênero fluído ou queer, com média de 34 anos de idade e oito anos em um relacionamento.

A maioria dos participantes era casada ou morava junto, 20% estavam em um relacionamento mas moravam separado e 7,4% estavam em um relacionamento não-monogâmico consensual. A maior parte dos participantes era branca, com estudo e não-religiosa. Mais da metade se identificava como heterossexual, 29,7% como bissexual e 5,2% como lésbica ou gay.

Aos participantes foram feitas quatro perguntas:

– “Quando você sente que seu desejo sexual é maior ou menor que o de seu parceiro, o que você faz?”
– “Seu parceiro faz algo nessas situações em que há discrepância entre o desejo sexual de um ou outro?”
– “Você e seu parceiro se empenham em alguma estratégia específica nos dias que apenas um dos dois querem sexo?”
– “Até que ponto essas estratégias são úteis?”

As respostas foram então analizadas e agrupadas em cinco estratégias principais tomadas pelos casais para lidar com as diferenças de libido e motivação ao sexo.

Briga de casal sobre sexo

Estratégias

1. Masturbação

A atitude mais comum utilizada pelos participantes do estudo quando estavam com vontade de fazer sexo mas o parceiro não correspondia foi se masturbar. Alguns se masturbaram sozinhos, em privado, enquanto outros se masturbavam ao lado de seu parceiro. É importante ressaltar que, neste tópico, falamos apenas de masturbação solitária. Além disso, alguns participantes assistiam pornografia, outros liam contos eróticos.

2. Iniciar uma atividade diferente com o parceiro

Também houve participantes que preferiram iniciar alguma atividade sexual ou erótica com seu parceiro que não envolvesse penetração. Por exemplo, alguns parceiros relataram atividades como sexo oral, masturbar um ao outro, ou tentar algo que deixe o outro com vontade de transar. Alguns também relataram preferir ficar perto do parceiro, sem necessariamente alguma intenção sexual, como por exemplo “ficar de conchinha” ou “dar as mãos”.

Falta de Sexo

3. Comunicação

Muitos também escolheram iniciar uma conversação madura sobre a situação, procurando uma compreensão do ocorrido para melhor enfrentar o conflito, possivelmente ouvindo que “não é nada pessoal, estou apenas cansado”. A comunicação também proporcionou um melhor entendimento do outro e seu momento de vida, com respostas como “eu sei que você está estressado para sua entrevista amanhã, vamos tentar depois, quando estiver tudo bem”. Outros ainda preferiram combinar para outro momento no qual ambos estejam com vontade de transar.

4. Sexo de “manutenção”

Apesar de não interessados, alguns concordaram em fazer sexo mesmo assim. Por vezes os participantes reconheceram que, ao iniciar, seu desejo sexual aumentava, outros concordaram que fazer sexo seria importante para a relação, por isso aceitaram fazer sexo para melhorar o relacionamento, ainda que não tivessem vontade.

5. Desistir

Uma última tentativa foi simplesmente “deixar pra lá”, ou seja, aceitar que haverá outra chance ou fazer qualquer coisa sem relação com sexo, como cozinhar ou se exercitar.

O que funciona e o que não funciona?

Após recolher todas as respostas, foi possível elencar as que tiveram mais eficiência e quais tiveram menos. A atitude mais eficiente foi a comunicação sobre o momento, em seguida de iniciar uma atividade diferente com o parceiro e sexo de manutenção. Pouco menos da metade dos que se masturbaram (45%) disse que isso foi muito eficiente, além, apenas 9% disseram que desistir foi eficiente. Em contraponto, a maioria dos participantes disse que desistir não ajudou (72%). Contudo, nenhum dos participantes disse que se comunicar com o parceiro não ajudou.

O que isso nos ensina?

Se formos compreender o relacionamento como um todo, perceberemos que o sexo é apenas um momento no meio de uma infinidade de situações e emoções que enfrentamos e aproveitamos durante a relação. Entretanto, quando não temos sexo, temos de lidar com sentimentos diversos, para alguns serão como rejeição, tristeza e culpa, para outros será algo que deve ser aceito e pronto. Mas devemos, sempre, levar em consideração a singularidade da pessoa ao lado, com a qual você escolheu dividir sua vida.

Falar sobre sexo nem sempre é fácil e divertido. Para muito não existe apenas o tabu social sobre o que é certo, errado, pecado ou proibido, existem também questões muito singulares e intrínsecas que nos motivam a gostar mais ou menos de sexo, desde uma possível violência sofrida na infância, passando pela carência afetiva até uma criação aberta e dialogadora sobre a sexualidade. Respeite o momento de seu parceiro.

Referências:

  1. When Sex Leaves Marriage, New York Times, 2009.
  2. Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Review of Epidemiology, Biopsychology, Diagnosis, and Treatment, Science Direct, 2016.
  3. Strategies for Mitigating Sexual Desire Discrepancy in Relationships, Springer, 2020.
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