Relacionamento já terminou, mas não consigo desapegar

Terminando um relacionamento

Quando a gente se apaixona, mesmo que não seja a primeira vez, vivemos um momento em nossas vidas que parece não ter havido igual até então. A sensação é de que nunca iremos morrer, e se formos morrer queremos ao lado daquela pessoa que conhecemos a duas semanas e não conseguimos largar. Não há problemas, não há conflitos e onde poderia haver, nem damos bola, “amamos” demais para nos importar com os problemas. Por vezes não dormimos bem porque sentimos a falta da pessoa, não comemos bem ou comemos demais, temos pensamentos persecutórios e recorrentes sobre aquela pessoa e relacionamento, não conseguimos fazer nada sem ela por perto, sintomas semelhantes ao TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), Ansiedade e Depressão.

Não raramente o relacionamento perdura. Ficamos alguns anos com a pessoa. Tempo suficiente para que nos acostumemos com aquele alguém e para que a paixão acabe. Depois do fim da paixão pode vir algo diferente, um sentimento terno e que direciona a relação. Apesar de não-mensurável, esse sentimento pode determinar qual a resiliência de uma relação, mas não necessariamente, por vezes um relacionamento termina mesmo quando ainda há muito amor. Sobretudo, talvez possa ser dito, que o amor é um sentimento de aceitação, aos mais românticos, incondicional.

Amar alguém não é necessariamente ser feliz o tempo todo. Se não houvessem os momentos infelizes a felicidade não seria tão especial. Amar também é se permitir preocupar-se porque gosta da pessoa e quer seu bem, mesmo na briga ou na discórdia.

Criamos todas as forças interiores e nos esforçamos tanto para manter o relacionamento mas nem sempre é possível ou bom para nós mesmos e temos que tomar uma decisão. Decidimos então que aquele alguém não é mais alguém bom em nossas vidas. Aquela pessoa faz coisas que nos entristece, desrespeita, engana, ou não a amamos mais e, com muita dor, é necessário dar um basta. Esse momento é ainda mais difícil depois de várias tentativas recorrentes e frustradas de fazer as coisas certas. Mais marcante ainda, são muitas as lembranças boas que dificultam o rompimento.

É necessário, entretanto, ter noção de alguns pontos importantes neste momento tão decisivo de duas vidas que podem facilitar ou dificultar o término:

Questões Cotidianas

Em um relacionamento podem aparecer questões pontuais a se resolver, quando se mora junto, pode ser necessário que um saia da casa, quando há filhos envolvidos. Ou então vocês parcelaram um carro juntos. Tem conta conjunta. Pagam um imóvel. Essas questões práticas são as primeiras e mais visíveis dificuldades, inclusive são também as desculpas que muitos dão para não terminar. É necessário ponderar tudo isso para que os filhos não sejam prejudicados, um não fique com uma dívida enorme, ou sem casa para morar. É necessário, por mais difícil que possa parecer e por isso também extremamente necessário, ter compaixão. Ver que o outro também vai enfrentar as mesmas dificuldades e dar atenção a isso.

Vocês têm assuntos mal resolvidos

O relacionamento terminou com uma história mal contada, com uma traição, com negligência emocional, com rejeição, com problemas de convivência e acordos que não foram cumpridos. Ambos saem machucados, talvez nem tanto pelos citados motivos, mas porque há uma mal entendido que nos dificulta compreender o “porque”. Não sabemos nem temos como saber de tudo que se passou desde que nos conhecemos, podemos ter escondido uma série de coisas por medo ou para evitar brigas, mas a recíproca também pode ser verdadeira e seremos nós próprios os que ficamos prejudicados.

Relacionamento em crise

A poeira baixará e, caso seja possível, opte por um tempo somente consigo, fora do relacionamento, para esclarecer suas idéias e ver se tomou a decisão certa. Permita-se a maturidade de marcar um encontro em um local público, como amigos, para conversarem francamente e falar e ouvir, sem julgamentos, sem estresses e sem envolvimentos.

É difícil manter a racionalidade

Quando terminamos um relacionamento com dificuldade ou tivemos que tomar a dura decisão de sair, sentimos muita tristeza, raiva, angústia. Esses sentimentos podem ser explicados pelo funcionamento cerebral. Este é um momento em que o cérebro libera muito cortisol, um neurotransmissor responsável pelo estresse. Com estes níveis altos você não consegue manter um pensamento linear e racional saudável, seu julgamento fica prejudicado e você toma decisões erradas, como pensamentos auto-destrutivos, se ajoelhar e pedir perdão por algo que não é culpa sua, fazer ligações atrás da pessoa e pensar o tempo todo nas frustrações, remoendo.

Por outro lado, para dificultar ainda mais, um mero momento de esperança pode nos fazer feliz, “ele(a) se arrependeu e quer voltar comigo”, é seu primeiro pensamento ao ver seu telefone tocar. Seu cérebro inunda em dopamina e você sente um princípio de felicidade surreal. Entretanto ela não queria voltar, apenas ligou para perguntar quando você poderia entregar aquele casaco que gostava tanto. O ilusório se manifesta e obscurece a percepção de nós mesmos. Estabelecemos um luto para a perda simbólica, porém também real, e sofremos, tal como uma morte, uma perda significativa.

A dependência emocional é um vício

“Depender” é dizer que não tenho algo que preciso muito e que outra pessoa tem, por isso necessito dela. Isso é assumir e responsabilizar o outro e o relacionamento pela sua felicidade. Ou seja, quando dependemos emocionalmente de alguém dizemos a nós mesmos que só existe uma forma de ser feliz, estando com aquela pessoa, mesmo que façamos e falemos sem consciência disso. Deixamos de ser responsáveis por nossa própria vida e felicidade, deixamos que o outro decida, o que é grande peso e raramente é correspondido.Nem todas as pessoas com dificuldade de se separar no relacionamento possuem uma dependência emocional, contudo é importante atenção à este fato.

Tratar uma dependência narcótica é semelhante a tratar uma dependência afetiva. Logo de início uma certeza deve ser posta: “a recaída sempre acontece, mas devemos evita-la”. É difícil para um narcótico evitar a droga, assim como é para um alcoólatra evitar a bebida, assim como é para você evitar seu ex. Falando em neurociência o funcionamento cerebral nas três situações é exatamente o mesmo.

Se drogar, beber e amar liberam um neurotransmissor chamado Dopamina e outro chamado Oxitocina, os quais nos fazem sentir bem, nos relaxam, nos tranquilizam. Nas três hipóteses há um objeto de desejo, algo que se almeja e que é responsável pelo nosso bem-estar. Enquanto seu caminho for o mesmo e não aceitarmos que necessitamos mudar não conseguiremos seguir em frente. A abstinência pode sim ajudar no controle do impulso à quem se sente falta, porém não é a única forma. É necessário compreender e falar muito sobre a necessidade e a falta, para que esta possa ser ressignificada.

Sua família ajuda ou atrapalha?

A família, sua e do cônjuge, pode facilitar ou dificultar a separação, entretanto uma família bem estruturada que sabe seus limites e tem papéis e funções claras vai se abster da decisão e deixará que o casal decida, caminho este mais correto. A família pode sim aconselhar, porém muitas vezes existem veladas chantagens emocionais e abusos por parte da família, na luta contra a perda ou a favor da expulsão do integrante.

A Psicologia Sistêmica, pelo seu estudo dos relacionamentos modernos, cunhou um termo, “famílias emaranhadas”, que ilustra as relações familiares com fronteiras difusas, ou seja, aquelas famílias nas quais as decisões são tomadas muitas vezes por um bem próprio e não pelo bem dos cônjuges. A família pode aceitar facilmente um novo integrante, se apegar e dificilmente deixar ir embora. Eles são muito resistentes às mudanças, preferindo, muitas vezes inconscientemente, a tristeza alheia à inserir ou tirar alguém da família.

Famílias emaranhadas não têm claro qual seu papel e sua função dentro da dinâmica familiar e relacionamentos, se misturam hierarquicamente e não permitem autonomia, decisões são feitas não baseadas em um bem comum, e sim em interesses próprios. Por vezes sua mãe adorava aquele seu ex-namorado e pouco importa para ela se ele te traiu, desrespeitou ou afim, ela pensa no próprio interesse ao dizer para você reconsiderar, ou seja, não há julgo moral ou valorização da filha, e sim o mantenimento de uma história, mesmo que isso seja danoso. Neste exemplo de relacionamentos disfuncionais, é preferível estar infeliz em uma família que já reconhece a tristeza como algo comum do que se arriscar a terminar um relacionamento e traçar um caminho ainda desconhecido para aquele núcleo familiar.

O que fazer então?

Separar-se não é fácil para ninguém. Antes de tudo é necessário a clareza do motivo e a sobriedade para fazer as escolhas com razão e não com emoção. Avalie o quanto aquela pessoa é importante e porque ela é importante, não utilize apenas do seu sentimento. Muitas pessoas são capazes de amar quem lhes faz mal, quem não supre suas necessidades afetivas, sexuais, familiares e financeiras e isso abala o julgamento de certo e errado.

Antes de tudo que você leu aqui, e digo isso no final do texto para que estejam claras as dificuldades assim tornando-as mais fáceis de enfrentar, tente o diálogo, o acordo, a mediação. Caso o relacionamento esteja muito conturbado procure ajuda de um profissional. Todo casal passa por dificuldades no relacionamento e o acúmulo dessas pode gerar a separação. Esteja preparado para enfrenta-las, enfrentar ao outro mas, principalmente, enfrentar a si mesmo.

Referências:

  1. Escolha do Cônjuge, A. CAMARATTA, Iara Anton.
  2. Cinco Linguagens do Amor, As. CHAPMAN, Gary.
  3. Sexo no Cativeiro. PEREL, Esther.
  4. Casos e Casos. PEREL, Esther

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