“Ilha do Medo”: Esquizofrenia e Trauma

Análise Psicológica de "A Ilha do Medo" de Martin Scorcese, tratando sobre assuntos como Esquizofrenia, Transtornos de Personalidade e Humor e Tratamentos.

O filme de Martin Scorcese, lançado em 2010, conta a história de Ted e seu parceiro, Agentes Federais que são enviados para um Hospital Psiquiátrico em uma ilha isolada para investigar o desaparecimento de uma perigosa paciente. O filme trata sobre Esquizofrenia, Transtornos de Personalidade, Tratamentos para doenças mentais antigos e Psicologia em geral.

Trailer: Youtube

AVISO: Contêm Spoilers. Assista o filme primeiro.

Desde o início do filme podemos perceber momentos que dão certa clareza sobre a Sanidade, ou a falta dela, do personagem principal interpretado por Di Caprio, Ted Daniels. É importante ressaltar que toda a narrativa é feita pelo ponto de vista do personagem principal e que as percepções são baseadas no seu senso de realidade. O final entrega a verdade constantemente, contudo, de forma dúbia, ou seja, apesar de parecer tudo óbvio, duvidamos de nossas próprias convicções sobre a história antes de terminar de assistir.

A filmagem se inicia em um barco, no qual Ted, saindo do deck, visualiza seu parceiro de costas, por trás de grades, visível diferenciação de autonomia dos personagens, um estaria preso, o outro livre.

Ilha do Medo
Ted e seu parceiro, Chuck.

Ao chegar na ilha, percebemos que todos os guardas estão muito bem armados e atentos aos movimentos de Ted e Chuck, levantando armas e os cercando. Ao chegar ao portão principal é requisitado que deixem suas armas com os guardas, Ted reluta mas acaba entregando sua arma, seu parceiro, por outro lado, mostra inabilidade com a arma, tendo dificuldade de tira-la do coldre, o que mostra que não é um Agente Federal. Além disso, ao entrar no Hospital, muitos pacientes parecem reconhecê-lo.

A história verdadeira à mostra

Ao conhecer Doutor Crawley (Ben Kingsley), este apresenta fatos sobre a paciente que desapareceu do Hospital Psiquiátrico. Trata-se de uma tentativa médica para o retorno à sanidade de Ted por meio de uma rememoração, ou seja, ao apresentar a paciente desaparecida à Ted, que na verdade é uma personificação de sua falecida esposa, ele poderia voltar à realidade e perceber a perda de sua esposa como motivo de um dos motivos de sua dissociação.

Rachel Solando
Rachel Solando

Na percepção da inutilidade da proposta e a resposta física de Ted, o médico rapidamente lhe entrega uma medicação calmante, curiosamente um clássico pequeno copo de café, como aos seus pacientes. Além, o Doutor brevemente tenta novamente, ao sugerir que a paciente desaparecida criou um mundo ficcional para justificar sua estadia naquele lugar, atribuindo papéis e funções a cada interno e colaborador, assim como Ted faz.

“A lei dos quatro. Quem é 67?”

Aversão à Água

Conforme o andamento da trama, mais elementos com referência à água são adicionados. Inicialmente Ted está enjoado e vomitando no banheiro do navio, depois, ao vasculhar a ilha, o Chefe da Guarda enfatiza o perigo da correnteza à volta. Visivelmente nenhum guarda parece realmente se importar em procurar pela paciente, isso porque todos sabem que ela nunca existiu.

O mesmo se repete com a equipe de enfermagem, ninguém realmente foi treinado para aquela encenação, então foi necessário improvisar, com respostas prontas de uma enfermeira que, conhecendo o medo de água de Ted, quando questionada sobre como havia sido a Terapia de Grupo de noite passada, relata que a paciente estava com medo da chuva e que o Doutor Sheehan havia conduzido a reunião. Ted diz que gostaria de conversar com esse Doutor, mas Dr. Crawley diz que não será possível, já que este saiu da ilha pela balsa, no mesmo dia pela manhã. Obviamente, o médico que saiu da ilha é o parceiro de Ted, disfarçado de Agente Federal para acompanhar o tratamento de Ted, mentira essa que deve levantar outras para poder ser mantida.

Outra tentativa de rememoração, mais efetiva, foi a meticulosamente preparada orquestra de Mahler que toca quando os agentes chegam ao Escritório do Dr. Crawley, osquestra esta que tocava enquanto Andrew (nome verdadeiro de Ted) matava generais nazistas quando ainda era soldado na 2ª Guerra Mundial.

Ted tem um sonho no qual reencontra sua falecida esposa. Na realidade criada pela Personalidade de Ted, ele acredita que sua esposa morreu em um incêndio provocado por um dos internos, chamado Laeddis que, em realidade é a real personalidade dele mesmo. Na realidade, contudo, a Personalidade de Andrew, a verdadeira, matou sua esposa após esta matar seus três filhos afogados.

Ted decide interrogar alguns dos pacientes, aqui podemos perceber um interessante jogo de fotografia, para que todos os pacientes, incluindo o próprio Ted sempre apareçam em cena acompanhados de um guarda. O único que não aparece em cena acompanhado de um guarda é o Dr. Sheehan (disfarçado como Chuck).

Outro fato importante que escancara ainda mais a insanidade de Ted é quando uma das internas interrogadas, em um momento de estresse, pede um copo de água, bebe em um copo invisível, após coloca um copo de vidro na mesa, mostrando as falhas de percepção de realidade do personagem principal.

Esquizofrenia e Copo Invisível

Ted, em mais um momento de alucinação, durante uma tempestade na qual ele e seu parceiro se abrigam em uma igreja na ilha, conta sobre um suposto estudante universitário que conheceu, inteligente, de bom coração e socialista, chamado George Noyce, que após um experimento psicológico começou a alucinar, espancou seu professor e foi sentenciado ao Hospital Psiquiátrico. Após um ano de tratamento é solto, entra em um bar e mata três pessoas, seu advogado pede internação em outro Hospital Psiquiátrico, porém ele não quer voltar, pedindo a cadeira elétrica, por fim sendo enviado para uma Penitenciária comum. Mais à frente explica-se que George é, ainda, um dos detentos da Ala C.

Essa história inventada, comum em diagnósticos de Esquizofrenia, é sustentadora para suas hipóteses de que o Hospital Psiquiátrico utilizava de lobotomia, um tipo de cirurgia cerebral, na qual se dividem os hemisférios cerebrais, para que o paciente seja mais dócil. Esse tipo de cirurgia era comum na década de 50. Ao final da cena são encontrados pelo Chefe da Guarda Policial e diz: “Vê! Eles nos encontraram!”, seu parceiro responde, “É uma ilha chefe, eles sempre vão nos encontrar.” Interjeição óbvia também para explicar a não existência de Rachel Solando, se existisse já teria sido encontrada.

Quem é o paciente 67?

Mais à frente, Ted descobre haver um paciente de número 67. No total existem 24 pacientes na Ala C e 42 outros nas Alas A e B. A mensagem encontrada no suposto quarto de Rachel Solando, que na realidade era do próprio Ted, alterego de Andrew, questionava quem era o paciente 67, ele mesmo.

Após um interrogatório com a recém aparecida Rachel Solando, Ted tem dificuldade ao enfrentar a tempestade pela luz dos relâmpagos e sente Fotofobia, uma hipersensibilidade à luz, provavelmente efeito colateral da falta de suas medicações, as quais são passadas pelo Dr. Crawley, ficando Ted mais calmo logo após.

A Ala C inunda devido à chuva, então as celas se abrem e muitos detentos fogem. Ted e Chuck seguem para a Ala C, onde, após uma briga se separam e Ted procura por Laeddis. Ele encontra George Noyce, um dos detentos, visivelmente machucado que diz ter apanhado de Ted. Podemos perceber mais uma das alucinações de Ted, impulsionada por esse mesma conversa que, para Ted, não há sentido, vendo sua falecida esposa, Dolores, dentro da cela de Noyce. A alucinação de Ted se deve ao choque de realidade. O paciente lhe diz que Laeddis não está na Ala C, então só poderia estar no Farol.

A Esquizofrenia de Andrew Laeddis

Porque então Ted teria batido em George Noyce? Porque este lhe chamou pelo seu nome real, Andrew Laeddis, o nome do suposto assassino de sua esposa.

Ao sair da Ala C, encontra Chuck que está com um relatório completo sobre o paciente Andrew Laeddis. Ted reluta em ler o documento, dizendo que o verá depois, mais uma resistência em enfrentar a realidade. Após uma briga Ted acha que Chuck havia caído do penhasco próximo ao Farol, ele desce para ver o corpo e tem outra alucinação, envolvendo ratos e uma pessoa dentro de uma caverna, a conversa é fantasiosa e corroboradora das crenças de Ted, é algo comum em pacientes dissociados ter alucinações confirmar suas crenças de realidade.

A maior revelação e choque de realidade poderia ter sido quando, ao voltar para a estrada, é encontrado por um dos Chefes de Polícia, com quem tem uma conversa sobre violência e como se conhecem a muito tempo.

Ted consegue escapar, ataca um dos médicos e o seda com uma injeção, explode o carro do Dr. Crawley como distração e segue para o farol. Neste momento, finalmente, consegue enfrentar seu trauma com a água, mergulhando para poder alcançar o farol.

Depois de alcançar o farol, imobilizar um guarda, revistar todos os andares e encontrar apenas salas vazias, chega ao último andar, onde encontra Dr. Crawley que, ao vê-lo, repete palavras que Andrew havia dito a Dolores, sua esposa, anteriormente, “Porque você está todo molhado, meu bem?”, em mais uma tentativa de recobrar o senso de realidade no paciente.

Este é o momento decisivo no qual Dr. Crawley explica a Andrew os nomes inventados que criou para sustentar sua Dissociação. Edward Daniels (apelido “Ted”) é um anagrama para seu nome real Andrew Laeddis, assim como o nome Rachel Solando, personagem inventada por Andrew, é um anagrama para o nome de sua falecida esposa, Dolores Chanal.

Porque as alucinações?

Um dos mecanismos de defesa comuns em pacientes com Transtorno Dissociativo de Identidade é a criação de realidades com fatos diferentes, para sustentar uma personalidade na qual possa ser algo diferente, evitando lidar com seus conflitos internos, responsabilidades e acontecimentos. No caso de Andrew, a realidade que criou lhe possibilita ser um héroi de guerra, quando, na realidade, ele é um homicida.

Tratamento inadequado

Medidas extremas se fizeram necessárias para assegurar a segurança de todos, incluindo o próprio Andrew, já que ele é treinado, perigoso e quase matou um dos internos, George Noyce, duas semanas antes. Desta forma a instituição optou por uma última tentativa de tratamento por meio de uma criação de realidade na qual Andrew realmente fosse um Agente Federal e tivesse um parceiro, papel desempenhado pelo Dr. Sheehan. Entretanto, toda essa proposta foi falha, já que o paciente não recobrou seu senso de realidade, continuou a alucinar e inventar histórias. Obrigando a instituição a realizar uma lobotomia.

Origem do trauma

A esposa de Andrew, Dolores, era uma paciente com Esquizofrenia, Transtorno Afetivo Bipolar ou, possivelmente, Transtorno de Personalidade Borderline. Andrew era ausente, alcoolista e parecia viver um Transtorno Pós-Traumático, devido à guerra. A família se mudou para uma casa no lago depois que Dolores, propositalmente, botou fogo no apartamento em que moravam. Não bastante, Dolores afogou seus filhos no lago enquanto Andrew trabalhava. Ao chegar em casa tentou salva-los, porém em vão. Por fim Andrew acaba matando a esposa.

Ao se lembrar de tudo, sucumbe e desmaia, acordando ao lado de uma enfermeira com a qual fantasiou ser Rachel Solando, e é questionado pelos médicos sobre seu senso de realidade. Aparentemente ele está ciente de seus atos, e entende a seriedade destes.

Clorpromazina

Antes de fazer qualquer explicação sobre a medicação, informo que não sugiro ou indico a utilização de qualquer medicação. Somente um Médico Psiquiatra pode receitar medicamentos psicotrópicos. Não se automedique.

A Clorpromazina é uma medicação utilizada para tratamento de Psicoses, criado na década de 1950, é indicado para pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia, estados de humor maníacos ou psicóticos induzidos por uso de drogas, náuseas e vômitos e convulsões. Alguns efeitos colaterais são sedação, sonolência, discinesia e discinesia tardia, ou seja, espasmos involuntários dos músculos, secura da boca, constipação, problemas de acomodação visual, entre outros.

Novos tratamentos

Na década de 1950, realmente, não haviam muitos tratamentos adequados, humanizados e eficientes para o tratamento de Transtornos graves. Nos dias atuais, entretanto, existem muitos recursos medicamentos e terapêuticos, bem mais evoluídos e eficientes para tratar distúrbios como tal. Os tratamentos atuais possuem menos efeitos colaterais e melhores resultados, possibilitando qualidade de vida habituais. Vale ressaltar, contudo, que diagnósticos de Psicose são raros.

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