Casos e Casos: Repensando a Infidelidade

Resenha crítica de "Casos e Casos: Repensando a Infidelidade". Uma análise da infidelidade por diversos ângulos para entender as complexidades do amor e desejo.

Esther Perel

Esse artigo é uma resenha crítica sobre um dos livros e trabalho de Esther Perel, reconhecida Psicoterapeuta nascida na Bélgica, consultora organizacional de empresas Fortune 500 ao redor do mundo e com consultório estabelecido em Nova York. Fluente em nove idiomas, lançou seu primeiro livro em 2007, chamado “Sexo no Cativeiro”, focado nas questões conjugais e sexuais; e “Casos e Casos”, focado na infidelidade; sendo que ambos foram traduzidos para mais de 20 idiomas. Foi palestrante no TED, tendo mais de 20 milhões de visualizações além de ser criadora do podcast “Where Should We Begin?”

Esther Perel - Repensando a Infidelidade
Esther Perel fala sobre infidelidade

Breve Preparação

Casos e Casos é um livro provocativo que sugere a compreensão da infidelidade, para trabalho de terapeutas de casal, mas também para casais que enfrentam a infidelidade, traição, quebra de contrato conjugal, com fácil leitura. A autora recorda historicamente o fato da traição ser tão antiga quanto o casamento e que é o único pecado citado duas vezes nos dez mandamentos, um por pensar sobre e outro por cometer o ato de traição.

Antes de começar a falarmos sobre as palavras da autora e reflexões provenientes, precisamos afastar o julgamento moral e frases fáceis para abrir espaço ao ponto-de-vista imparcial e capaz de compreensão dos dois lados. Visões rasas e binárias impossibilitam compreensões mais profundas das motivações, das falhas na relação, nas expectativas individuais e das repercussões complexas. Discursos moralistas, verdades absolutas e julgamentos de “certo e errado”, “vítima e culpado” ou adjetivos como “egoísta e impulsivo” ou “maduro e responsável” não são um início de conversa aceitável para discutir sobre o tema porque geram parcialidade, nos aliam à um lado. Devemos deixar claro, além, que não condenar também não é uma aprovação da infidelidade. Existe um abismo entre compreender e justificar.

“O tom moralizador da conversa atual tende a atribuir o “problema” a casais ou indivíduos falhos, evitando as questões maiores que o alcance do fenômeno pode incitar. A infidelidade diz muito sobre o casamento – não só o seu casamento, mas o casamento como instituição.” (p. 17)

Definição de Infidelidade

Explicar Infidelidade exige entendermos que esse termo versa sobre diversas perspectivas, culturas e relações. Quando perguntamos aos nossos próximos o que é “infidelidade” provavelmente teremos respostas diferentes de se viermos a perguntar o que é um “caso amoroso” ou um “romance”. Talvez possamos dizer que a traição é uma quebra de contrato da relação. O que é um contrato, então? Esse termo fala sobre algo que todos os casais fazem quando se unem, mesmo que desconheçam sobre o ato de fazê-lo. Contrato são os combinados que o casal faz durante toda a relação e sobre todos os assuntos de convivência. Como por exemplo, gostos, preferências e definições de relação, se podem sair sozinhos ou farão tudo juntos, se falam abertamente sobre os problemas ou se esperam tudo ficar bem, se dividem as contas ou um paga tudo, se participarão das reuniões familiares ou não, se aceitam outras pessoas dentro da relação, quais as fronteiras da relação e muitos outros assuntos.

A quebra de contrato se dá, principalmente, porque o casal não sabe muito bem como reconhecer os limites da relação e boa convivência, descobrindo isso por “tentativa e erro”, quando a melhor prática seria conversarem sobre as falhas da relação e resolvê-las.

Não apenas, a traição é resolvida como traição não apenas no ato, mas no discurso do outro, quando o ato é nomeado como traição. Algumas relações podem entender ver pornografia, falar com outras pessoas, contar sobre intimidades para terceiros e transas extraconjugais como traição, contudo, nem todas as relações possuem contratos fechados, de forma que alguns casais não consideram esses exemplos como traição. Em outras palavras, não existe verdade absoluta do que é “trair”, cada casal define isso singularmente.

Traduzindo a Infidelidade

Para a autora, a traição como conhecemos envolve segredos, atração sexual e/ou conexão afetiva, nas palavras da versão traduzida: clandestinidade, química sexual e envolvimento emocional. Guardar um segredo importante pode ser uma traição muito mais dolorida do que um ato sexual. Tão forte que quando somos traídos temos uma perda de julgamento, confundimos o que sentimos, partimos para decisões impensadas, nos culpamos, odiamos o outro, nos conformamos. A emoção manda quando ocorre traição.

A Clandestinidade se refere ao segredo, ao misterioso e excitante momento no qual a relação principal encobre uma extraconjugal, de forma que há uma troca de poder, quase como um “eu sei e faço algo que você não sabe”. O sigilo não apenas aumenta a carga erótica nos casos fora do casamento, mas também é um ato de revolta dentro de relações que possuem sentimentos de impotência ou dominação.

A Química Sexual fala sobre buscar algo não necessariamente melhor do que o sexo da relação, mas algo novo, algo inesperado e imprevisível, um novo corpo, uma nova experiência. Essa alquimia remete ao reconhecimento e redescoberta do que se gosta ou não e do que permite ou não dentro do sexo.

O Envolvimento Emocional é talvez o fator que mais movimenta quem agiu em infidelidade para um término de relação ou sequência em outra. Esse ponto fala muito mais que os outros dois porque sempre há algum nível, mesmo que ínfimo, de manifestação afetiva. Por vezes também, o sexo com prostituição é uma das formas de ter o sexual com o bloqueio emocional.

Ainda segundo a autora, podemos ver que o tratamento mais recorrente em consultório com o indivíduo traído é semelhante ao tratamento utilizado em traumas, justamente por trazer respostas fisiológicas e emocionais semelhantes. O que se percebe então é que a traição pode ser tão traumática quanto um acidente automobilístico, porque ambas envolvem a possibilidade de perda, de luto, de abandono e incerteza.

Antes da traição, mas não somente, os comportamentos de ciúme são comuns, queremos assumir uma posição forte, queremos ter ciúmes, mas aceitar que temos ciúme é aceitar nossa vulnerabilidade, então somos relutantes e fingimos não sentir nada. Em uma definição, podemos dizer que ciúme é uma vontade de manter controle do nosso parceiro, uma resposta disfuncional à ansiedade frente o incontrolável. Ter ciúme é fazer-se de comparativo subliminar com o outro.

Existe participação mútua do cônjuge na decisão do traidor? Sim, mas ele não é responsável pela traição. De fora pode parecer fácil entender, mas quando nós vivemos a traição, é muito mais complicado não nos culparmos, nos levando à humilhação ou acerto de contas, para dividir a responsabilidade e, pela traição, permitidos agora à agir de forma que considerariam inimaginável. Isso inclui destruir pertences, roupas, divulgar imagens íntimas, até mesmo trair também, tudo parece justificável agora, mas nunca é. Pagar a traição com outra traição só prolonga o sofrimento e retarda a resolução.

Falamos muito sobre o que o traído sente, como age e pensa, mas falamos pouco sobre o traidor, preferimos conferi-lo culpa. Então, para esse que traiu fica a infeliz decisão e fardo do quanto esconder e como esconder. Para o traído, desconfiado e inseguro, fica a dúvida de quanto quer descobrir. As verdades que decidimos botar na mesa, para os dois lados, significam consequências. Assumir a traição pode significar perder a custódia dos filhos. Apontar o traidor pode significar uma grande perda financeira. Desta forma, ao falarmos sobre o traidor, é importante considerar se contar algo ao seu parceiro é ser honesto e sincero com ele, ou apenas uma vontade de limpar a própria consciência.

“A infidelidade acontece em casamentos bons, em casamentos ruins e até quando o adultério é punível com a morte. Acontece em relações abertas em que o sexo extraconjugal é cuidadosamente negociado de antemão. A liberdade de deixar uma relação ou pedir o divórcio não tornou a traição obsoleta.” (p. 12)

Costumamos pensar que a traição somente é possível em uma relação na qual há infelicidade, mas percebemos que os casais que têm uma base sólida de relacionamento, família e felicidade, também traem. Isso acontece já que, justamente em contrassenso, os motivadores de uma traição nem sempre são a felicidade ou falta dela. A infidelidade pode ocorrer por motivações que são muito mais pessoais do que sobre a relação em si, porque a movimentação à infidelidade é um balanço entre o desejo e a estabilidade. Se temos conforto e confiança na segurança, podemos ter mais desejo pela aventura. Talvez queiramos correr um pouco de risco com alguém que tem um estilo de vida diferente.

Segundo a autora, quando estamos com alguém há muito tempo, sexo se torna algo que devemos fazer, não algo que necessariamente queremos fazer. Conforme a relação se torna comum, sacrificamos a emoção pela estabilidade, ao menos por um tempo. Pensando em todos os problemas, contas, conflitos, questões familiares, é fácil desejar uma rota de fuga. Contudo a segurança pode facilmente se converter em monotonia, dando um brilho aparentemente interessante à descoberta do novo.

Pode parecer muito polêmico, entretanto, procurar uma aventura não significa que o parceiro não valorize sua família, seu casamento, sua vida caseira, inclusive pode ser justamente o contrário, porque o parceiro que traiu pode estar procurando algo que falte na sua relação para que a anterior não seja tão faltante. Isso nos faz compreender que a intenção pode não ser comprometer a relação, até porque não há movimentação para mudanças permanentes, como um término. Contudo, é óbvio, que o diálogo aberto seria capaz de esclarecer essas faltas e buracos na relação, mas, como a conversa aberta e madura é algo escasso, os cônjuges costumam preferir partir ao ato do que ao diálogo.

“O que fazer, então, com o casamento que passa pela traição?” Talvez seja esta a pergunta chave que todos fazem. Lidar com a traição resgata um ideal de relacionamento que nos foi passado pela família, pelos pais, pela sociedade, sobre um “certo e errado”, sobre felicidade e conjugalidade. Existe um peso em aceitar a traição e continuar na relação. Socialmente o traído “deveria” terminar a relação, mas não precisa ser assim.

O terapeuta de família e casal pode abrir em mesa todas as possibilidades do casal, com racionalidade e responsabilidade para que sejam ativos nas suas decisões e assumam seus papeis, contudo, cabe somente ao casal decidir manter ou não a relação.

O Sexo pode ser apenas Sexo?

“Não significou nada!” Ouvimos com frequência uma afirmação como esta, que traz à toa a cena de um casal em que um parceiro chora ou grita em raiva e tristeza e o outro se justifica em medo. Poderia o sexo ser realmente insignificante?

O casal que percebe suas falhas, seja na intimidade, na sexualidade, na convivência deve procurar meios para que sejam estancadas estas faltas. Danielle e Jonah se amavam e admiravam, contudo transavam cada vez com menor frequência, já que uma das partes não reconhecia sua própria sexualidade e a outra não via o sexo como algo imprescindível. A infidelidade começou com a pornografia e seguiu até casas de massagem, ocasiões e situações nas quais Jonah achava poder explorar sua sexualidade e resgata-la. Quando Danielle percebeu a traição, também percebeu que não dava espaço para que o parceiro vivesse sua personalidade. Apesar de que teria sido muito mais inteligente e maduro que Jonah trouxesse suas questões à conversa com Danielle, o casal então foi capaz de entender esse erro e se abriu para novas experiências, juntos, melhorando sua vida sexual.

Seria o caso anterior algo muito difícil de ser alcançado? Não necessariamente, mas deve haver, desde pronto uma abertura para compreensão e racionalização da situação. Segundo a autora, “Mulheres traem por amor, mas e os homens? Eles traem por sexo”. Isso obviamente não é verdade absoluta, dado que todos necessitamos, em algum grau, de sexo e de afeto, mas que isso pesa mais para uns do que outros.

A autora também cita Terry Real, terapeuta familiar e autor, em uma de suas conversas presentes no livro, falando sobre o “triângulo profano”, composto por um “pai poderoso, irresponsável e/ou abusivo, a esposa codependente, oprimida, e o filho meigo que acaba no meio deles” (p. 175). Nesta dinâmica, o filho assume um papel protetor com a mãe, aliando-se em uma relação que inimiza o pai e que, mesmo que não perceba, lhe traz também um prejuízo, porque pode, vários anos depois, ter a dificuldade de se relacionar afetivamente em decorrência de exigências familiares desestruturantes.

“Para os homens que têm medo da própria agressividade e buscam segregá-la, o desejo se separa do amor. Para eles, quanto maior a intimidade emocional, maior a relutância sexual. Homens com versões extremas dessa separação geralmente acabam sendo afetuosos mas assexuados com os parceiros e ao mesmo tempo consumindo avidamente pornografia barra-pesada e embarcando em diversas formas de sexo comercial. Nesses contextos sem emoções, o desejo pode se manifestar livremente, sem que temam magoar a pessoa amada.” (p. 176)

Quando o caso preserva o relacionamento

Não é raro que sejam direcionados adjetivos negativos para o infiel e adjetivos relacionados à pena para o traído. Não necessariamente a infidelidade traz falhas de caráter, mas certamente sim as falhas da relação. Por vezes a traição é vista como uma forma de manutenção da relação, desde que esta se mantenha sigilosa ou, ainda mais, se saiba mas faça vista grossa.

Por definição objetiva e óbvia, a traição se estabelece quando há alguma falta não comunicada. Volto a afirmar que o mais adequado sempre é comunicar, esclarecer, trazer assuntos e demandas emocionais à tona, mas a grande maioria passa longe da sinceridade e prefere agir externamente com infidelidade. Contudo, é também comum que, mesmo com a traição haja vontade mútua para que a relação se mantenha, sendo a traição descoberta ou encoberta. Portanto, muitas vezes, a traição ocupa no indivíduo uma falha que a relação não foi capaz de atender. “O caso é um estabilizador, uma maneira de tirar a pressão de sua relação principal, não destruí-la” (p. 202).

Devemos utilizar uma lupa para focalizar assuntos específicos historicamente como a obrigatoriedade da monogamia. Monogamia esta que teve sua função vários séculos atrás para manutenção dos bens e posses, mas hoje, em sociedade organizada, veio na bagagem familiar mas já não faz mais sentido. Não seria mais inteligente então aceitar que todos nós possuímos desejos que nem sempre serão supridos igualitariamente. Não suficiente, a monogamia raramente é uma garantia para sustentar uma relação contra a infidelidade.

A Amante (ou a Outra)

Dividamos as relações como principal e secundária, afinal, independente de haver somente sexo, sempre há algum nível de afeto. A relação principal costuma vir carregada de história, exigências, felicidades e insatisfações. A relação secundária costuma se iniciar em decorrência da primeira, mas sem limites e ainda traz à tona uma vitalidade, uma sensação inesperada de perigo e atração. À relação principal pode haver uma preferência, ou não; contudo à secundária é comum aderir um papel estritamente sexual ou satisfatório.

Isso se percebe quando, após terminar um relacionamento para ficar com a amante, os papel se modificam tanto à ponto de se espelharem aos da primeira relação. Isso porque à amante era conferido o papel de realização do prazer, mas agora ela é muito mais que uma amante, ela se torna namorada, esposa, se torna um relacionamento propriamente dito que terá também regras como qualquer outro. Esta aqui uma das grandes dificuldades e ciladas de terminar um relacionamento para iniciar outro, encontrar os mesmos problemas porque não houve real compreensão de tudo que não estava mais funcionando na relação principal.

Para quem ocupa o espaço na relação secundária, resta uma espera difícil de sustentar, a de que o relacionamento principal algum dia termine e que possa ocupar esses espaço legitimamente. Não há autoestima que resista ao sentimento de menos-valia que o afeto sigiloso impõe. Algumas pessoas percebem cedo ou tarde esse infeliz desfecho, quase que inevitável, outras pessoas, perduram em papéis limitados por dizerem aceitar a relação principal e estarem bem em ser a secundária, mas sempre haverá algum prejuízo.

Uma nova forma de se relacionar

Estar em uma relação amorosa sempre terá seus dissabores, dificuldades e momentos negativos, mas para que não haja infidelidade seria possível rever a forma como as relações se estabelecem e se mantêm? Quebrar regras, transgredir, criar novas possibilidades é excitante, mas se as regras das relações forem mais compreensivas com o ser humano ao lado, seria mais fácil se sentir aceito e poderia haver um espaço para revisão dos acordos e contratos?

“A frequência da infidelidade não é prova de que a monogamia não faz parte da natureza humana? […] Será que a gente não evitaria muita dor, sofrimento e mentira da infidelidade se simplesmente acabasse com a tirania artificial da monogamia? […] Porque a gente não tem casamentos construídos em torno da não monogamia consensual e resolve o problema da traição?” (p. 225)

Diversos casais optam pela monogamia não por acreditarem nela, mas por uma construção social e familiar que transferiu essa definição como “correta” por gerações, muitos o fazem sem nem mesmo questionarem a possibilidade de algo diferente. Cabe aqui então a compreensão mais profunda da não monogamia.

Diferente do que se têm como senso-comum, os não monogâmicos não transam com toda e qualquer pessoa, nem de forma aleatória ou desprotegida. Como toda relação existem regras, mas essas compreendem os desejos e necessidades individuais abertamente, por diálogo e acordos. Desta forma, a não monogamia também traz contrato conjugal, possivelmente mais rígido que o monogâmico, inclusive.

As regras podem variar muito para cada casal, desde “você pode transar com quem quiser, mas eu tenho que conhecer a pessoa”, ou “você pode transar desde que não seja mais de uma vez com a mesma pessoa”, ou “deve fazer isso em nossa casa, não na casa de outra pessoa”, ou “só podemos transar juntos com alguém novo” entre outras exigências que possibilitam tanto a realização dos desejos do outro, mas também anulam o sigilo da infidelidade e a culpa relacionada.

Os casamentos monogâmicos, em sua maioria, não costumam ter força ou união para suportar a infidelidade e se manter juntos de forma a superar o ocorrido. Por vezes uma das partes se sente “obrigada” a terminar a relação já que a outra traiu. Ficam as mágoas, os assuntos mal resolvidos que agora são ainda mais envoltos em demandas emocionais confusas e que podem dificultar a resolução e separação amigável.

Outros casais, passam pela ruptura como definitiva, trazendo-a como decisão tomada para a sala de consultório, mas, aos poucos, percebem que a infidelidade pode trazer novas compreensões do que houve.

“Quase afundamos, mas não aconteceu. Nossa relação é mais robusta hoje em dia. Uma pena a gente ter tido que viver tudo aquilo para chegar até aqui, mas eu não voltaria atrás.” (p. 254)

Esther Perel divide então os que passam pela traição em três grupos, os sofredores, os construtores e os exploradores. O primeiro é composto pelas pessoas que foram traídas e não superam a dor e mágoa, carregando o fardo da relação terminada por vários anos, lidando com culpa ora sua ora do traidor. Aos sofredores não é exclusiva a finalização do relacionamento, vários se mantêm junto com o parceiro, mas o fazem como forma de vingança e castigo moral para com o traidor, investigando e observando cada passo. Para relações assim há pouco espaço para conversa saudável e muito para embates de certo e errado, vítima e vilão.

Os construtores decidem, apesar da infidelidade, manter a relação baseada no afeto não-sexual, na família, nos bens, nas empresas, na companhia do dia a dia. O termo “construtor” simboliza o casal como um prédio que já vinha rachando há bastante tempo mas que escolhe-se não demolir, ao invés disso optou-se por passar uma massa corrida nas paredes rachadas. Seria demais para esse casal refazer as paredes. Vivem então uma versão conformista da relação, ela já não é mil maravilhas, mas é o que tem e, para eles, não vale a pena mexer.

Os exploradores, por fim, são os casais que decidem tirar algo positivo da infidelidade, abrindo a relação, praticando não monogamia, fazendo swing ou outras práticas. Decidem terminar um casamento e começar outro com a mesma pessoa. Ficam juntos assim como os construtores, porque vale a pena ficar ou não vale a pena não ficar, mas com o adicional de poderem, agora, realizar desejo que antes eram proibidos. Esse é o exemplo de casal que resolve as brigas com sexo, que, mesmo com a dor da traição, revive a paixão violentamente e tem resiliência para enfrentar as incertezas e inseguranças próprias e da relação.

Todos os casos de infidelidade são, por definição, transformadores, seja para manter-se junto com paixão reavivada ou para um litígio comprometedor emocional e financeiramente. A autora traz então as grandes perguntas norteadoras de toda relação oficial, “como fortalecer nossa relação contra a infidelidade” e “como trazer um pouco de vitalidade erótica do amor ilícito para nossas uniões oficiais”? (p. 259)

Nenhum casamento, namoro ou relacionamento pode ser “à prova de infidelidade”, procurar isso pode inclusive fortalecer a rigidez conjugal, tolhendo a sexualidade dentro da relação e favorecendo a extraconjugalidade. Somos educados por ideais de fidelidade incondicional e que, portanto, devemos ficar cegos para todos nossos desejos a partir do momento que usamos alianças, mas isso é irreal e mentiroso com nossa própria psiquê. Existe, sempre, um caminho do meio mais compreensivo e terno com o desejo no casamento.

Referências

  1. Casos e Casos – Esther Perel
  2. Esther Perel – Rethinking Infidelity
  3. Terry Real

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